Primavera

primavera ana

Quem vive sonhando com realidades diferentes?
Vive sonhando com amores imaculados
Que não se provoquem em dores e dissabores
Nomeiam-se românticos incorrigíveis
Gostam de flores ao acordar
Beijos roubados na chuva
Confissões de liquidificadores ao deitar
Carinhos… Ha carinhos intermináveis em falar, olhar, chegar…tocar
Frios na barriga por esperar o amor abrir a porta com uma violetinha na mão
Em dias difíceis acreditam que em olhar seu amor tudo vai passar
Dor é só aquela que a vida trouxe pra logo levar
Amar e acreditar nesse amor são para poucos lunáticos e poetas
Que ao olhar a lua gritam o nome da amada
Assim sou eu vestida de flores
Esperando a primavera e amores cor de rosas
Pintando os cinzas com cores de arco Iris
Sonhando com dias de praia, beijos livres e abraços quentinhos de quem amar

Ana Nunes
03/09/2014

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Dia do Psicólogo

“Existem palavras sábias, mas a sabedoria não é suficiente, falta ação” Jacob Levy Moreno

 

Hoje é um dia pra nós, psicólogos, fazermos um balanço do nosso oficio…da nossa práxis, e com qual consciência amorosa realizamos nosso oficio.

Não somos perfeitos, e dores também temos e, acredito,  somente por isso conseguimos ouvir e caminhar com o outro em suas dores.

Tratamos a alma de quem está conosco e, ao mesmo tempo, a nossa própria.

Parabéns para nós, corajosos trabalhadores de dores, que, com esperança, semeamos a paz…

Salve 27/08/1914 Dia do Psicólogo.

 

Dona Sancha* (Cantiga de Roda antiga)

Hoje acordei com essa cantiga da infância a rondar minhas lembranças.
Ontem, depois de um dia de trabalho no meu consultório em São Paulo, adormeci com este gosto de saudade no peito. Após anos de atendimento a um cliente querido, nos despedimos do trabalho. Agora vejo o que a lembrança da cantiga de roda veio justificar:

Começamos o trabalho com a tarefa de retirar as máscaras e descobrir o seu rosto, que, até então, não mostrava a ninguém com quem se deitava.
Não podia sentir o que conflitava em si mesmo, distanciando-se do que era de fato, por medo de  não ser aceito, querido pelos amigos e  familiares.
Achava-se muito feio e incapaz de ter escolhas, porque, escolhendo, não seria escolhido afetivamente por ninguém.

Na música, Dona Sancha pergunta “que anjos são estes que andam guerreando”?
Na minha opinião, a batalha surge entre os desejos, pulsando por caminhos em que pode-se obter mais prazer, versus  a incapacidade de se conseguir enxergá-los e experimentá-los, pois não acreditamos que somos filhos de rei, netos de rainha…
(Jacob Levy Moreno, o pai do psicodrama, dizia que “todos nós somos deuses, porque somos filhos do Criador e  temos a centelha divina dentro de nós”).
Entretanto, construímos crenças, papéis marcados por impotências geradas por nossa historia  familiar e social. Aprendemos nosso manejo de vida de um jeito, e acreditamos que só pode ser assim, e que não há possibilidade de ser diferente, e vamos nos entristecendo, nos irritando com realizações que “não nos cabe” (só aos filhos de reis nobres, a quem é dado o direito de ser feliz).
Pensamos que a felicidade não é para nós, pois somos diferentes, possuímos desejos que não são  aceitos pelos outros, e de tanto pensar nos outros, não nos permitimos viver e descobrir a cada dia quem somos e o que queremos…
Então, tenho que continuar guerreando, vivendo esses conflitos, repetindo e provando a cada momento o quanto sou inviável para realizações profissionais, relações afetivas que podem dar certo, mesmo que sejam afetos diferentes dos ditos “normais”.
Foi uma descoberta processual de anos, reconhecendo potencialidades e fortalecendo- as, incentivando a coragem para as suas realizações pessoais e afetivas.
Um processo de crescimento, cujos frutos poderá  saborear por toda sua vida, vencendo sozinho, agora, os desafios que aparecerão.
Sabendo, agora, que suas necessidades não serão supridas por ninguém, porque são suas, e que a responsabilidade pelas rotas que escolher para os seus voos na vida, cabe a ele descobrir e experimentar, e que os outros não estão nem acima nem abaixo.
Descobre, finalmente, que é filho de rei e que tem, portanto, um rei dentro de si, e que pode sim ter seus raios de sol, e se banhar  neles sem necessariamente  precisar ser igual a ninguém, porque  é um ser único, com vontades e desejos únicos, a serem descobertos e vividos por ele de forma verdadeira, com ou sem medos.
E como um pássaro, que experimentou muitos voos acompanhado (pelo psicoterapeuta),   agora se arvora em experimentar suas escolhas de voos deliciosamente ousados,  com a descoberta da coragem tatuada em sua pele.
Fica então Dona Sancha a esperar novos viajantes da vida, e, enquanto tece em seu tear, pergunta-se: “que anjos são estes que vivem guerreando de noite e de dia”…
Posso ajudar?

*Dona Sancha (cantiga de Roda antiga)

Preparação – escolha de uma criança que ficará ao centro da roda de olhos vendados para ser “Dona Sancha”
As crianças do círculo cantarão:
Senhora Dona Sancha
Coberta de ouro e prata
Descubra seu rosto
Que nós queremos ver

Dona Sancha canta:
Que anjos são esses
Que andam guerreando
É de noite, é de dia
Padre Nosso, Ave Maria

Crianças cantam:
Somos filhas do rei
Somos netas da rainha
Senhor rei mandou dizer
Que escolhesse uma pedrinha

(A criança que está no centro de olhos vendados, tentará pegar uma colega do círculo. Esta será sua substituta (Dona Sancha), e a brincadeira recomeçará).
Agradecimento especial  a Maria de Fátima Gouvea, pela correção dos textos e sua capacidade amorosa de entender e transcrever o que esta psicóloga quer deixar…muito grata, Fá.

Busca pela identidade além da Fibromialgia

cirandaProfissionais do Instituto Sedes Sapientae, em parceria com a  UNIFESP, realizam sessões de terapia em grupo desde 2009. As participantes – compostas por 14 mulheres, na faixa etária de 30 a 70 anos – são acometidas pela mesma síndrome: a Fibromialgia. Uma das responsáveis pelo tratamento, a psicóloga e psicodramatista Ana Maria Viana Nunes, diz que foi construindo e tentando entender a singularidade de se estar fibromiálgica. “Através de um processo psicoterápico que acontece semanalmente, este trabalho visa a melhora na qualidade de vida da pessoa portadora de fibromialgia, o despertar da criatividade e espontaneidade potencializando papéis, apesar da dor crônica e generalizada que acomete estas pacientes, que convivem com a dor e as limitações decorrentes desta síndrome”, explica ela.

Segundo Ana Maria, no decorrer do processo desenvolvido, a busca pelo reconhecimento dos vários “Eus” que compõem a personalidade de cada uma dessas mulheres tornou possível uma transformação, em que as pacientes reconheceram que tinham também outras identidades, como mãe, mulher, amante e profissional. “A intenção era que elas deixassem somente de focar na dor que as acompanha, fazendo com que descobrissem possibilidades de tomar, exercer, criar escolhas e modos de se relacionar”, diz a especialista. “Isso permite que tenham mais autonomia, uma melhor forma, um olhar mais flexível sobre os padrões às vezes estereotipados, aprendidos no decorrer da vida, na forma que sinto, ajo e reajo”.

Trabalho em grupo

Ana Maria conta que o trabalho de terapia em grupo realizado na UNIFESP visa a busca de novos modos de ser e estar, por meio da afetividade. “A intervenção psicodramática, que vem sendo desenvolvida ao longo de um processo psicoterápico, vai constatando a evolução dos indivíduos com ações voltadas mais para a saúde e melhora na convivência com a dor”, explica ela. “Isso proporciona uma melhor compreensão e aceitação do que a pessoa é e o que pode se tornar, transformando hábitos a partir de tal constatação”.

Dentro deste trabalho, a psicóloga conta um episódio, em que não havia preparado nada em especial para a terapia. “Era a primeira vez que iria dirigir sozinha e olhei para elas dizendo: para onde vamos hoje?”. Ela explica que uma das pacientes se levantou e mostrou uma poesia sobre sonho, para ler para as companheiras. Todas gostaram e Ana Maria disse ter usado como aquecimento, focando nos sonhos de cada um. “Qual sonho habita em mim que eu não realizo ou não consigo realizar? E que sonho é esse? Posso sonhar? Neste ponto, me veio uma frase do cantor Raul Seixas: “Um sonho que se sonha só, é um sonho que se sonha só. “Um sonho que se sonha junto, é realidade”.

A partir desta sessão, Ana Maria diz que foi descoberta pelas pacientes a possibilidade de que se pode sonhar. Uma das pacientes, inclusive, chegou a verbalizar que “não sabia que sabia sonhar”. “Através deste sonho construído pelo grupo, seus componentes foram se individualizando, buscando seus sonhos, compartilhando e ouvindo sugestões de como se pode ainda sonhar”, diz. Após esse trabalho, em um novo encontro do grupo, ela conta ter percebido pessoas muito mais potencializadas, com ideias criativas de como poder, por exemplo, ganhar dinheiro, ou mesmo se divertir e ir em busca de um companheiro.

Nesse ponto, a psicóloga conta que aquelas mulheres começaram a conhecer os desejos do grupo e a buscar novos caminhos para aquilo fosse realizado. “Isso porque existe o “Eu” fibromiálgico, que não deixou de existir, mas apareceram outros “Eus” que podem gerar prazeres, alegrias e realizações, apesar da dor”, avalia ela. “As pacientes passaram a caminhar e se desenvolver a partir do momento em que tomaram consciência de quem são e de como podem criar formas inéditas de fazer parte do mundo que habitam. Também perceberam o quanto eram responsáveis por estarem tão adoecidas, se colocando nessa posição e tomando para si suas responsabilidades frente a própria dor”.

Ana Maria finaliza dizendo que, tendo em vista todas estas questões, se reportou à visão Moreniana* de homem – que busca a saúde e a divindade de cada cliente. “Acreditando que todo ser é um ser potente, segundo Nietzsche, convido as pessoas que participam de cada encontro a mergulharem juntas nesta busca pela divindade e potência. Usando as técnicas psicodramáticas como instrumento libertador destes Eus, podemos conhecê-los e costurá-los, para que assim possam vir a construir novas verdades, com um significado mais possível em transitar, arrumar e reorganizar a vida de forma mais feliz. Este foi meu convite ao pedir que elas buscassem seus sonhos e desejos, já tão esquecidos’.

 

*Jacob Levy Moreno foi o criador do psicodrama, técnica originária do teatro, que busca a espontaneidade do indivíduo para a liberação da criatividade, trazendo como objetivo adequação à vida.

O Provolone

o-diretor-de-filme-prende-uma-placa-de-válvula-16088973Hoje,  gostaria de falar sobre “delegar funções” … e confiar…

Quando não confiamos, dificultamos nossa vida e das parcerias que temos ou pretendemos ter.

Reconhecer que o outro é capaz de executar funções que sabemos fazer tão bem é um trabalho árduo, mas que pode ser muito criativo.  Árduo porque temos que reconhecer que outros têm capacidades iguais, tão melhores ou piores que as nossas. Criativos porque temos que ser espontâneos o suficiente para completar, assimilar as tarefas realizadas com as diferenças inesperadas.

Este mundo em que habitamos hoje é cheio de informação e movimento. Temos de reconhecer, portanto, que não podemos reter o conhecimento de todo um projeto que implica em múltiplas ações e que a solução ora pensada pode ser transformada durante a fase da execução. Temos que ter flexibilidade o suficiente para aceitar as transformações que podem acontecer durante o percurso para possivelmente alcançar o sucesso esperado.

Ilustro essa reflexão com a lembrança de um programa de TV da década de 80.
Quando começaram os vídeos clipes, antes mesmo da MTV, havia essa “novidade” cujo nome eu não me lembro. Mas que me marcou muito. Primeiro porque era legal ver e ouvir as músicas que gostávamos. Mas ainda melhor era me divertir com a legenda final, onde os créditos apareciam enfileirados:
Apresentação: Provolone
Direção Geral: Provolone
Execução: Provolone
Figurinos: Provolone
E vinha Provolone, Provolone, Provolone…

No final apareciam os patrocínios, mas o que ficava claro era que tudo tinha sido feito pelo próprio apresentador.

Ficou este registro engraçado… e anos depois, no curso de especialização de psicodrama, trabalhando numa dramatização  onde ensaiávamos a direção de um grupo, percebi que os diretores  se portavam como se só eles fossem  diretor, egos auxiliares,  diretores da meta direção (professores) e atores da plateia.

Como psicóloga, acabo sendo extremamente detalhista. Mais ainda sendo do minucioso signo de virgem, pois isso se potencializa como uma característica em mim, e passo minha vida observando fatos e pessoas. Observando, e tentando não julgar, é claro.
Mas obviamente que  atitudes simples, cotidianas, comuns a todos os seres humanos, e até a mim mesma, me levam a fazer conclusões sobre um dos perfis mais interessantes que já observei…

O  olhar  sobre as relações de chefia, onde tem que se delegar para se construir é deveras intrigante.

Observando, concluo que  a dificuldade de se delegar se dá porque a nossa expectativa (ao se delegar tarefas) é que sejam feitas exatamente como faríamos, sem contar com a leitura do outro e suas capacidades pessoais, que são diferentes daquelas de quem delegou, e o resultado pode ser surpreendente.
Seja porque, habituados a fazer de um só jeito, “o nosso”, o conservamos assim porque sempre deu certo, seja por questões narcísicas que só nós é que sabemos, ou por infinitas variáveis, muitas vezes não damos a oportunidade ao outro de fazer algo novo, diferente dos caminhos que conhecemos. Certamente pode ser tão “diferente” que temos dificuldade em gostar ou concordar, tendo muitas vezes que retornar a proposta inicial e explicar de novo, clareando para o outro o objetivo inicial do trabalho e quais são as metas que esperamos atingir.
Mas, apenas dessa forma, será realmente possível criar redes parceiras e potentes, ao invés de submissas, puxa- sacos e ressentidas.

Quando começamos a nos dar conta que nossa exigência perfeccionista não nos permite trabalhar com parceiros sem deixá-los sentindo-se pequenos, incapazes e impotentes, podemos então observar que  estamos é tentando  provar nossas competências em cima da “incompetência” de quem nos acerca.

Denota-se uma enorme insegurança, quando projetamos no outro as nossas próprias fraquezas, podendo gerar para nós mesmos uma grande solidão e até mesmo uma escravidão no modo de prosseguir a vida.
Pois se todo tempo afirmamos: “é difícil sair do meu trabalho”, “não tenho quem possa me ajudar”, “não posso tirar férias”, acabamos por criar nossas próprias prisões, que, apesar de ter as portas abertas, são doloridas, adoecidas e frustrantes.

É preciso sonhar para se realizar. Mas não se deve fazer do sonho uma ideia mirabolante.
Para que o sonho se realize, deve sair do mundo das ideias e se desenvolver.
Muitas vezes, precisamos da ajuda de outras pessoas, cuja visão possa ampliar nossa criação, tornando-a algo “objetivo” e não mais “subjetivo” quanto  o próprio ato de sonhar.
Ana Nunes

Sua Excelência, o Sr Jacu

jacuVivo na cidade de São Paulo há pelo menos 30 anos. Aqui meus filhos nasceram, cresceram, frequentaram escola…
Também estudei, pós-graduei, e trabalhei sempre “do outro lado da cidade”.
Há 30 anos, portanto, enfrento um trânsito sempre muito ruim, que aumentou proporcionalmente no decorrer desse tempo.

Na verdade, acho até que não proporcionalmente, porque nos últimos 10 anos, tá muito além do proporcional. Tá o verdadeiro caos.

Tenho um cotidiano de transito, assaltos e sobressaltos na cidade de São Paulo, e
isso para mim era normal.

Afinal, nossos potenciais de adaptação ao mundo contemporâneo nas grandes metrópoles sempre foram aceitos sem muito questionamento. O  desrespeito as pessoas, que chega a levá-las a uma invisibilidade do existir; os barulhos de sirenes, os gritos surdos vindos das ruas, das balas perdidas e cruzadas, das motos assustadoras que se aproximam dos carros ameaçadoramente;
As velhas arvores que caem pelo descaso, ou são simplesmente retiradas; as chuvas; as enchentes; incêndios nas favelas, que devastam moradias de seres humanos; o fato de ficarmos horas a fio num transito caótico sem sabermos quando e como chegaremos de volta  a casa.
Até  o lixo nas ruas também parecia muito natural. Somos mesmo um país de gente deseducada. Mesmo a morte de um ciclista famoso pareceu normal.
Por que ficar de bicicleta no meio do transito, afinal? .
Com todos estes  entraves e realidades de nosso cotidiano, acabamos aceitando sem muito estranhamento esse “natural cosmopolita” e vamos  nos esticando para nos adaptarmos a esse meio, conforme as necessidades.
Somos pessoas contemporâneas, e por isso, plugadas e conformadas  a toda a mudança que este tempo nos dita como ” normal” e “natural” .
E seguimos  em frente, correndo atrás do tempo, e sem tempo para viver  nossos desejos que muitas vezes nem pensamos que possam existir.

Mas há dois anos, tive a oportunidade de frequentar uma cidade muito charmosa no interior de São Paulo, São Francisco  Xavier.
Quero descrever aqui a descoberta do paradoxo entre a minha experiência de viver em uma metrópole, e o contato com o lado simples da vida, que havia se perdido. Esquecido  pelas urgências cotidianas, mas resgatado através dessa nova possibilidade, a mim oferecida.

Fui a São Francisco para visitar uma amiga.  Sua casa era num sitio nos derredores de Campos de Jordão.
A surpresa de experimentar uma estrada cheia de curvas estonteantes, no meio de uma mata fechada, que me obrigou a reduzir tão fortemente a velocidade, me possibilitando quase um “tour” de forma que comecei ali mesmo a admirar  aquela gente tranquila envolvida numa calma que não era – nem de longe – o meu “natural”…
O céu era azul e não havia faixas cinzas no horizonte, estranhei…
Segui adiante, me transformando as vezes na própria estrada, tamanho meu envolvimento emocional com a paisagem.
Havia gado do lado de lá das cercas, pastando tão “solenemente” , que me lembravam uma pintura   retratando uma calmaria que só quem não vive por lá pode perceber.
Durante todo o caminho, segui com aquele estranhamento, e ao mesmo tempo movida pela alegria de estar num lugar onde a natureza habitava com tal força e beleza.
Aquilo de tal forma me tocou que ainda hoje, ao escrever sobre aquele dia, me brotam águas nos olhos pela lembrança de um instante de verdadeira comunhão com a mãe natureza.

Foi neste clima de satisfação que cheguei ao meu destino depois de mais de uma hora.
Ao avistar os olhos brilhantes dos que me esperavam, meu coração se abriu em plenitude, e pude me reconhecer feliz como há muito tempo já não sabia mais ser.

Seguimos para casa em que me hospedaria e já meus ouvidos silenciaram para outros sons de modo a escutar um barulho constante de uma água caindo.
Uma cachoeira linda fincada no meio da mata no quintal mais lindo em que meus olhos já pousaram: inesperada surpresa.
Alem do acolhimento da anfitriã  deixando a toalha limpa no banheiro, e na cozinha, as comidinhas que eu gosto de comer como de hábito, também animais dóceis me receberam com carinho e inclusão.
O canto dos pássaros de varias espécies me encantava, mas havia um  cuja existência eu desconhecia: sua excelência o “Jacu”. Um pássaro enorme, do tamanho de uma galinha, mas que voa como uma ave qualquer.  Fiquei deslumbrada!

Ao anoitecer, com o som da cachoeira, o vento balançando a  mata ainda virgem, e um friozinho que convidava a uma bela noite de descanso e acomodação de todas as “novidades” que só na montanha se experimenta, adormeci.
Por volta das três e meia da manhã, os gatinhos da casa, que já me aceitaram como amiga, começaram a ronronar e miar nas minhas costas, para que eu os alimentasse. Levantei-me e  dei-lhes a ração e aproveitei para pitar um cigarro na varanda da casa onde os outros dormiam.
Contemplava da varanda a madrugada: um céu cheio de estrelas, uma lua que  convidava a sonhar, e a cachoeira que me levava a sentir tão de perto a força da natureza que mexia em meus ouvidos como um carinho de agradecimento, quando em meio a tudo isso, ouvi um barulho horripilante, que me pareceu muito ameaçador. Fiquei aflita.  O que fazer? Que bicho era esse, que me amedrontava frente a tanta beleza? Corri para dentro da casa e me enfiei na cama como se assim me protegesse da ameaça desconhecida. Me encolhi no canto da cama, e fiquei a pensar: que mistérios tem a noite… se fosse à luz do dia, talvez não me sentisse assim ameaçada. O que seria aquele grito temeroso na mata, me perguntava….
Mas todos dormiam na maior tranquilidade…por isso, quis crer que não era nada praassustar…afinal aquele som horrível não abalou o sono de ninguém. Resolvi, então,  resgatar o meu próprio e adormeci.

Ao amanhecer, logo no café da manhã, perguntei sobre aquele grito que eu tinha ouvido vindo da mata e, em meio a risos, ouvi que era a Sua excelência, o Sr Jacu.
Rimos muito do meu medo, e continuei por ali, por mais dois dias, tentando me adaptar às estranhezas da “roça”….

Fiquei por muito tempo ainda pensando nessa loucura que é nos permitirmos  achar que os barulhos de nossa vida urbana são “naturais”… mas quando nos deparamos com a natureza de fato,  chegamos a achar antinatural um grito de um pássaro, mesmo que eleseja gigante.

Se nos aprofundarmos ainda mais, quantas  situações ditas “naturais” aceitamos sem questionar: desconfortos que carregamos ao longo de uma vida, posturas em relacionamentos, tanto pessoais como sociais.
E acabamos nos acomodando em variados tipos de violências por não conseguirmos mudar
nossas rotinas, nossos trabalhos, nossas relações.
Enfim, devemos buscar modos de  nos voltarmos para dentro de nós mesmos e nos perguntar?
Gosto? Quero? Ou posso seguir experimentando novos desafios de viver.?

 

Ana Nunes

Porque fazer psicoterapia

Colcha-de-Retalhos-Neneca-Barbosa-395x250“O louco não expressa apenas a sua loucura. Ele também denuncia a insanidade da sociedade em que vive” Eliana Brum

Essa frase da Elaine Brum é interessante pra se pensar. Ela fala de um fato ocorrido no metrô, onde um portador de doença mental empurra uma mulher, que acaba perdendo o braço no acidente. Uma tamanha violência que causa grande indignação e medo.

Como reagir a loucura? O que é ser louco? Eu tenho loucura em mim?

“Melhor será sempre isolar o louco em instituições, assim não vemos, não entramos em contato “perigoso” com o louco”.

Há tantos caminhos por onde ir olhando e entendendo esta frase.

Mas prefiro conversar aqui sobre o que é psicoterapia e para quem ela serve.

Parto do principio de que todos nós temos um pouco de loucuras não ditas, não pensadas. Muitas de nossas esquisitices assustam a nós próprios, e pensamos que não podem ser vistas por ninguém, senão o que vão achar de nós?
Então, carregamos impotências, desconfianças, trejeitos, assumimos posturas que nem são nossas, em função do que o outro possa pensar de nós, e sofremos para manter tudo isso bem escondido. E, as vezes, fatos que poderiam ser banais, nos fazem perder o controle e nos posicionamos de modos estranhos aos olhos do outros e até para nós mesmos.

Vejo a vida como a imagem acima, uma colcha de retalhos…
Se as histórias, como esses retalhos, estiverem jogados, espalhados, sem uma organização, uma harmonia, ficam sem função, e muitas vezes parecem não combinarem entre si… Aparentemente nos esquecemos que poderiam ser reutilizados em um outro momento, fazendo uma diferença qualitativa na composição da vida, ao invés de ser apenas um pedaço de retalho (ou de nós mesmos), jogado num canto, escondido de si próprio, e só escutado, socorrido, em momentos de total perda de controle como no caso do louco do metro.

A somatória de histórias vividas podem ajudar no nosso momento presente, nas nossas escolhas para caminhos futuros, de modo determinante para se ter uma qualidade de vida.

O convite a estar em psicoterapia é este: conhecer sua própria história, se apropriar dela, entendendo, compreendendo suas marcas, cunhadas ao longo de sua vida. Marcas que geraram traumas, devido a relações com pais que não puderam ser o que você precisava; adultos que não acolheram a sua criança.
Enfim, a psicoterapia pode apoiar o indivíduo que deseja seguir a vida, recriando uma nova história, de forma mais reconhecida, e agora “escolhida” daquilo que se quer ou não se quer incluir na sua colcha de retalhos, podendo realizar seus mais íntimos desejos, antes só fantasiados.
Mas é necessário ter coragem para “se conhecer”.
Tornar-se pessoa pode ser mais tranquilo quando temos alguém para dividir nossas tristezas,  compartilhar nossas alegrias e pensar junto em novas possibilidades, sempre visando à qualidade de vida.

A função do psicoterapeuta não é ditar normas de conduta e nem fazer julgamentos…é poder caminhar de mãos dadas com seu cliente, assegurando-lhe suas potencialidades e capacidades de ser feliz.

Veja entrevista da autora no you tube

https://www.youtube.com/watch?v=L3q4-4-n09w